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3 de maio de 2015

127 Horas


O texto abaixo foi extraído do Capítulo Quinze, páginas 359, 360 e 361 do livro "127 Horas", de Aron Ralston, publicado pela Editora Seoman. Aron Ralston, alpinista experiente, em uma caminhada sozinho pelo deserto de Utah, nos Estados Unidos, num desfiladeiro estreito sofreu um grave acidente, quando deslocou uma rocha de quase meia tonelada e teve sua mão direita presa. Tentou se soltar de inúmeras formas, usando seus equipamentos de alpinista. Com pouca água e comida, consumiu aos poucos seus suprimentos até acabarem, passando a beber sua urina. Após vários dias, quando se viu sem chance alguma de sobreviver, pois não disse a ninguém para onde ia, num ato de desespero e coragem, quebrou seu braço e com canivete o amputou. Livre, continuou sua batalha para sobreviver.
O texto em primeira pessoa é narrativo descritivo, com riqueza de detalhes que emocionam e nos transportam ao local onde o alpinista encontrou água e bebeu, até podemos nos colocar no lugar da personagem, sentir sua coragem, sua alegria, sua dor e, principalmente sua sede.




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O ar escaldante seca  os meus poros e eu sou torturado por três minutos enquanto faço uma série prolongada de ajustes e manobras infinitesimais para manter o meu corpo embaixo da plataforma. Finalmente, solto um pouco mais a corda através do ATC, os meus pés descendo soltos pela borda inferior da plataforma e estou pendurado livre da parede na minha corda, a cerca de 18 metros do chão. Um momento de deleite vertiginoso substitui a minha ansiedade enquanto giro sobre mim mesmo para ficar de frente para o anfiteatro, flutuando à vontade no ar. Deslizando a corda para baixo, indo mais rápido à medida que me aproximo do solo, observo o eco das minhas cordas cantando enquanto elas deslizam pelo ATC.

Tocando o chão, puxo o chicote de seis metros de comprimento das minhas cordas através do aparelho de rapel e imediatamento arremeto para a poça aureolada de lama. Saio do sol para a sombra fria, soltando bruscamente a mochila do lado esquerdo e depois mais delicadamente por cima do braço direito, e de novo retiro a Nalgene. Quando abro a tampa desta vez, arremesso o conteúdo na areia pelo lado lado esquerdo e encho-a na poça, afastando folhas e insetos mortos ao longo da água aromática. Estou tão ressecado que saboreio a umidade elevada ao redor da piscina e isso aguça minha sede. Chocalho o líquido para enxaguar a garrafa e depois esvazio de novo o conteúdo para o lado.

Passando a garrafa pela piscina duas vezes, encho-a de novo com a água marrom. No tempo que demora para levar o bocal da Nalgene aos meus lábios, discuto se devo beber devagar ou engolir de uma vez, e decido provar e depois engolir de uma vez. As primeiras gotas encontram a minha língua e, em algum lugar no céu, um coro principia a cantar. A água está fria e, melhor de tudo, é adocicada, como um vinho do porto de alta qualidade depois do jantar. Bebo o litro inteiro em quatro goles encadeados, afogando-me no prazer, e depois estendo a mão para tornar a encher a garrafa. (Tem tanto para beber.) O segundo litro segue do mesmo modo e torno a encher a garrafa uma vez mais. Imagino se a água teria esse gosto maravilhosamente adocicado para uma pessoa normalmente hidratada. Se  a água realmente é assim tão deliciosa, o que a deixa dessa maneira? Será que as folhas mortas fermentam o líquido em algum tipo de chá do deserto?

Sento-me na borda da poça e, por um momento, estou feliz comigo mesmo, como se minha sede fosse tudo o que realmente importasse, e agora que cuidei dela, estou totalmente a vontade. Tudo desaparece. Até mesmo de notar a dor do meu braço. Eu fantasio que estou num piquenique, sentado à sombra depois de um lanche prolongado, sem nada a fazer a não ser observar as nuvens passarem.

Mas sei que o alívio terá vida curta. Relaxo como estou, tenho 13 quilômetros de caminhada pela frente para chegar até minha caminhonete e preciso me preparar para isso. Observo vários conjuntos de pegadas de cascos de cavalo na areia à minha direita. Alguém ou um grupo de pessoas, andou cavalgando por essa parte do cânion desde a última tempestade. O meu coração salta ao pensar que poderia cruzar com um grupo de caubóis em algum ponto da minha caminhada, mas não me deixo enganar a ponto de alegrar ou manter muitas esperanças. As pegadas ressecadas em forma de maçã, pontuando o caminho pelo leito seco por uns 50 metros cânion abaixo, dizem-me que faz mais de um dia que aqueles cavalos passaram por aqui.

Bebo o terceiro litro de maneira mais conservadora .......................................................................................................................... seguro a câmera na mão esquerda para um autorretrato com a poça de água ao fundo. 
.......................................................................................................................... encho o recipiente com dois litros de água adocicada.



ATC: Air Traffic Controller, marca comercial de um aparelho de freio/descensor de rapel. 
NALGENE: marca comercial de uma empresa que fabrica garrafas de água para esportes radicais e de aventura. 


Sugestões de atividades:

1- Leitura do texto.
2- Comentário
3- Levar os alunos a um local para beberem água.
4- Encenação
5- Desenhos.
6- Exposição dos desenhos
6- Pesquisa sobre a água potável no Planeta Terra.



26 de abril de 2015

Pinturas de Festas Populares




As três pinturas a seguir foram feitas por três pintores brasileiros contemporâneos. Elas foram produzidas em lugares distintos e têm diferenças e semelhanças.


ALFREDO VOLPI  nasceu na Itália em 1896 e veio para o Brasil com apenas um ano. Faleceu em São Paulo em 1988. Volpi pertenceu à segunda Geração Modernista. Sua primeira pintura foi a fachada de um casario. Ocupa toda a tela. È uma pintura geométrica, na qual Volpi  utiliza poucas cores, mas fortes e contrastantes e bem definidas.

ALBERTO DA VEIGA GUIGNARD é natural do Rio de Janeiro. Nasceu em 1896 e faleceu em Belo horizonte em minas gerais em 1962.  Sua pintura tem características expressionistas, usa a cor para gerar um estado de espírito no espectador.

HEITOR DOS PRAZERES viveu no Rio de Janeiro. Nasceu em 1898 e faleceu em 1966. Desde criança teve contato com as artes. Foi músico, compositor e pintor. Perder o pai na infância foi um fator marcante em sua vida. 

Alfredo Volpi

Nesta pintura de Volpi aparece apenas a fachada de um casario. A presença das bandeirinhas coloridas remete a uma festa junina. Em sua pintura não há pessoas. O fato de as portas e janelas estarem cerradas, supõe que as pessoas se recolheram, apagaram a luzes e adormeceram. Isto está visível na parte superior das portas. A cor preta sugere luz apagada. Há luz externa e escuridão interna. Isso pode evidenciar um sentimento de angústia do pintor e despertar o mesmo sentimento no espectador.

Alberto da Veiga Guignard

            Esta pintura de Guignard mostra uma pequena cidade no início do anoitecer. A noite, encontra resistência e não consegue impor suas trevas: A cidade está em festa, totalmente iluminada. Nas rua, as pessoas estão mergulhadas na luz. Esta luz está por toda a parte: ruas, praças, calçadas, escadarias e até no interior dos casarios. Complementando a claridade estão os balões no céu. Os telhados das casas ainda não foram cobertos pela noite. As montanhas ao redor, lembram o período do ouro abundante em Minas Gerais, Estado onde o pintor viveu. Não há preocupação em retratar as casas e as pessoas de forma real. O importante é o estado de espírito que se quer passar e o pintor conseguiu demonstrar um ambiente alegre.

Heitor dos Prazeres

            A pintura de Heitor dos Prazeres, feita em cores vibrantes, retrata uma cena, possivelmente urbana, parece se tratar de uma ponte. O fundo mostra um céu nublado e no centro um balão colorido. Não é possível ver mais nada, isso lembra um rio fundo, do contrário seria visível. É como se a ponte estivesse subido ao céu, de encontro ao balão.  Ela está protegida lateralmente e tem um espaço reservado ao pedestre. Sobre a ponte estão crianças brincando, elas têm características afro. A pintura de Heitor dos Prazeres também não tem preocupação com as formas reais. As crianças não são reais. As meninas vestem roupas com modelos idênticos, divergindo apenas nas cores. Vestir roupas de modelos únicos evidencia igualdade social. E é um costume que na África ainda perdura. O pintor também retratou um período de festas juninas, isto a presença do balão confirma. As crianças estão brincando. Além de pintor, Heitor era músico. A forma como as crianças estão dispostas é a mesma de uma brincadeira de cantiga de roda. É como se elas estivessem cantando a música “Cai cai balão”, disputando quem consegue pegá-lo, pois elas estão com os braços estendidos em sua direção. Heitor dos Prazeres retrata um ambiente festivo.

Comparando as três pinturas,  nota-se que existem semelhanças e diferenças:

            Guignard e Heitor dos Prazeres retratam um momento festivo próprio do Brasil: O período das Festas Juninas. Na pintura de ambos há denúncia social: a presença de pessoas simples, da classe pobre. Eles mostram um cotidiano feliz, sem deixar de apresentar o que aconteceu na História do Brasil: a escravidão, as minas de ouro de Minas Gerais, as festas juninas herdadas dos portugueses, a religião católica. Na cidade, todas as pessoas comemoram a festa, ninguém fica de fora. Quem não está na rua, comera dentro de casa. As duas pinturas evidenciam sentimentos de amizade, alegria, espontaneidade. Nelas há luzes, cores, contrastes e sugerem ao espectador a presença de outros elementos como burburinhos, musicalidade.

            Volpi também retratou o Brasil na fachada do casario, residência com características colonial, habitada por pessoas simples, do povo, enfeitada com bandeirolas coloridas, típicas das festas juninas. Em sua pintura as portas das casas estão cerradas, como se a festa tivesse acabado e as pessoas tivessem recolhidas em seus aposentos. Não há luzes dentro das casa. Sobre cada porta há janelinhas pretas, como se ali um vidro mostrasse  que todas as pessoas haviam apagado as luzes. Volpi delimitou a paisagem. O fundo é o próprio casario. A cena de Volpi é quase estática, a não ser pelas bandeirolas que na imaginação podem se movimentar. Fica a cargo do espectador, imaginar o ambiente ao redor. A pintura de Volpi, ao contrário de Guignard e de Heitor dos Prazeres, sugere melancolia e silêncio.

            Portanto, apesar dos três pintores serem contemporâneos, habitarem o mesmo país,  retratarem suas pinturas com o mesmo tema, mostrarem o mesmo contexto social, cada um deles tem características específicas que os diferencia.: Guignard e Heitor dos Prazeres tem pinturas alegres e Volpi tem uma pintura melancólica.



21 de abril de 2015

Análise e comparação de obras de arte




            Antes de se iniciar a análise de uma obra de arte, é extremamente importante sua identificação, pois são esses elementos identificados que irão contribuem com detalhes enriquecedores e facilitar a sua compreensão.
            Numa breve leitura e análise comparativa de duas pinturas produzidas no século XX, uma, produzida entre 1900 e 1950 e a outra de 1951 a 2001 vamos ver a principal diferença entre as duas obras.   



            Esta obra, com o título de Marguerite, foi realizada pelo pintor francês Willian Adolph Bouguereau, que tinha preferência por temas mitológicos, crianças e mães. Foi executada em óleo sobre lona e concluída no ano de 1903. Mede 117,5 X 73,7 cm. e pertence a um colecionador particular. Seu fundo superior, situado num plano mais elevado e distante, é composto por luzes e sombras, dando a impressão de árvores.  Um pouco mais próximo do espectador, na parte interna de uma construção, esta uma escada aparentemente de pedras. Sobre os degraus estão espalhadas algumas pequenas flores colhidas. Do lado esquerdo do observador entra a luz tanto do ambiente interno quanto do externo. Mais próximo ainda do espectador, no centro da tela, sentada num dos degraus está uma criança. É uma menina vestindo blusa branca e saia azul escuro. Seu contorno é bem nítido, sua pela é clara, seus cabelos longos estão amarrados no alto da cabeça com um laço azul escuro também. Pela simplicidade no vestir e por estar descalça, parece ser de classe social menos abastada. Ela tem a fisionomia serena, aparentado estar em paz. A criança, de pernas cruzadas e pés descalços, segura duas pequeninas flores na mão esquerda, como se as estivesse mostrando. Com o braço direito ela cobre o rosto, fazendo sombra sobre os olhos. A impressão que se tem é que ela observa seu espectador, fazendo com ele uma troca de olhar.



La Carta é uma pintura feita por Fernando Botero, pintor colombiano, cuja característica marcante é a pintura de figuras com proporções maiores e características de gordas. Concluída no ano de 1976, La carta encontra-se no Museu Botero, em Bogotá, Colômbia. Mede 149 X 194 cm.  e foi pintada em óleo sobre tela. Ao fundo, no centro, vê-se uma parede azul clara. Trata-se de um quarto pequeno, suas duas paredes laterais são visíveis. Na parte superior desta parede, está o fundo de uma tela pendurada, mas não se vê figura alguma, deixando um enigma para o observador. Apesar da parede clara, nota-se que a luz vem do canto superior esquerdo do observador, supostamente uma janela aberta. No centro do quarto fica a cama de madeira, com a cabeceira revestida de tecido, formando um encosto macio. Os lençóis e o travesseiro harmonizam com o tecido que recobre a cabeceira. Sobre uma parte da cama, em colorido contrastante, está estendida uma coberta vermelha com bordas de cor amarelo ouro. Do lado oposto, estendido também, um outro tecido, de cor verde, aparentando ser uma peça de roupa. Sobre esses elementos, no centro do quadro, destaca-se a imagem desproporcional de uma mulher gorda, nua. Ela encontra-se deitada e com uma das mãos apoiada no rosto, segura a cabeça, com a outra, segura um papel, a carta. A luz que penetra no ambiente ilumina todo o seu corpo. Sua pele é clara e seus longos cabelos ondulados são ruivos, combinando com seu tom de pele. Os olhos, contrastando com o rosto, são pequenos e estão olhando o vazio, como se ela não estivesse enxergando nada concreto, apenas as imagens que passam em seu pensamento. Apesar de seu tamanho ser de uma pessoa gorda e grande, sua boca e seus seios são pequenos, o que deixa a impressão de uma mulher solitária, sem uma vida sexual ativa. Os pelos pubianos à mostra são poucos e discretos, pois são cobertos por sua perna direita que se dobra sobre a outra perna. À sua frente estão a metade de uma laranja madura e alguns pedaços espalhados. Nenhum deles foi degustado pela mulher.
Comparando-se as duas pinturas, observa-se que:
A pintura de Bouguereau traduz a realidade, a perfeição das formas, tanto do cenário quanto da figura da criança, como se fosse uma fotografia. Suas cores são harmônicas, os gestos são delicados, a natureza se faz presente e o ambiente é de serenidade. A criança interage com espectador, mostrando as flores e trocando olhar, portanto ela não está só.
Em Botero, a imagem da mulher encontra-se sozinha, isolada num quarto, não há cumplicidade com o espectador. Observa-se melancolia, solidão. Tanto o ambiente quanto a imagem não são reais. Em Botero o espaço é apertado, pois foi inundado pela figura da mulher.
Portanto a principal diferença está nas características de cada pintor. Cada um tem seu tempo, seu estilo, suas características, e suas pinturas retratam isso.